Viagem substitui ritual de formatura
Rosely Sayão
O andamento
dos trabalhos escolares dos alunos está a todo o vapor a esta
altura do primeiro semestre. Muitos já têm tarefas a fazer
com data para entregar, provas marcadas, livros a serem lidos, estudos
que exigem esforço, dedicação e concentração.
Enfim, é o ano letivo que, neste momento, já mostra ao
aluno o que as escolas esperam que ele faça para produzir e aprender
o mínimo requerido para seu período. Entretanto muitos
dos que estão cursando as séries finais dos ciclos (os
que freqüentam as oitavas séries do ensino fundamental e
os terceiros anos do ensino médio) estão com a atenção
voltada para um foco bem diferente.
-----------------------------------------------
No lugar das viagens, poderíamos recriar rituais de formatura
que fizessem mais sentido e que funcionassem como ritos de passagem
-----------------------------------------------
Explico: nos últimos anos, já se tem tornado tradicional
que a turma faça uma viagem para comemorar a formatura. E, em
geral, o local escolhido -mais para eles do que por eles- tem sido Porto
Seguro, na Bahia, que de seguro não tem nada. A organização
desses eventos já foi feita por empresas especializadas em conjunto
ou com a colaboração das escolas. Boa parte destas, ao
perceber que o grupo de jovens, no passeio, se transformava em um agrupamento
totalmente desgovernado e sem controle, decidiu ficar de fora do evento.
Algumas fizeram isso discretamente, outras agiram de modo mais firme:
não apenas avisaram aos pais que o passeio não contava
com sua aprovação e/ou participação como
chegaram a vetar o uso de suas dependências para a organização
e a discussão do passeio.
Tal atitude de algumas escolas desagradou muito a um grande número
de famílias, que não entendeu o recado implícito
ou explicitado nesse enérgico, mas sensato, posicionamento. A
mensagem dessas escolas é clara: sendo impossível para
elas garantir, com sua participação, o bem-estar dos alunos
e uma celebração saudável, a melhor atitude a tomar
é a de reconhecer seus limites de atuação e comunicar
isso às famílias. Já comentei o assunto anteriormente,
mas o foco de nossa conversa de hoje é outro sobre o mesmo tema:
o jogo pesado ao qual estão submetidos esses jovens.
As empresas organizadoras desse tipo de evento não querem perder
esse filão de mercado. Então, elas partiram com estratégias
persuasivas altamente eficazes e sedutoras praticadas diretamente com
os jovens, esperando que eles façam o restante do trabalho. Que
trabalho é esse? Muito simples: convencer os colegas e obter
a permissão dos pais para realizar a viagem e o conseqüente
pagamento.
Quando digo que é jogo pesado, é porque é mesmo.
Um certo número de passagens gratuitas aos alunos que se propõem
a organizar o grupo é ofertado pelas empresas, reuniões
são realizadas mostrando, em forma de show, o espetáculo
que é fazer esse tipo de viagem. Ora, que jovem resiste a tais
investidas?
Já sabemos em que resulta todo esse trabalho das empresas: jovens
lutando, com todas as armas que têm, para convencer os pais de
que "precisam" participar da viagem e que não podem
ser os únicos a ficar de fora. E quem conhece os jovens sabe
muito bem que eles, quando querem algo, fazem de tudo mesmo para conseguir.
Tal comportamento, legítimo e forte da parte deles, não
tem encontrado nos adultos resistência suficiente. Muitos pais,
por um motivo ou outro, não gostariam que a filha ou o filho
participasse do programa. Mas, depois de resistir a inúmeros
apelos dos filhos, acabam permitindo por exaustão e falta de
argumentos tão convincentes quanto os deles.
Talvez os adultos pudessem colaborar com os jovens de outra forma. Quem
sabe, buscando maneiras de poupá-los da pressão dessas
empresas, protegendo-os, um pouco que seja, dessa tentação.
Se, para um adulto que conta com recursos da maturidade, já é
difícil enfrentar as pressões sociais, imagine para um
jovem. Além disso, poderíamos recriar rituais de formatura
que fizessem mais sentido para os jovens e que funcionassem como ritos
de passagem. Aliás, esse é um excelente tema para uma
outra conversa.
--------------------------------------------------------------------------------
ROSELY SAYÃO
é psicóloga e autora de "Como Educar Meu Filho?"
(ed. Publifolha)
roselysayao@folhasp.com.br
Matéria
Publicada no jornal Folha de São Paulo, Caderno FolhaEquilíbrio,
em 24 de março de 2005.
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/equilibrio/eq2403200516.htm