Viagem substitui ritual de formatura
Rosely Sayão

O andamento dos trabalhos escolares dos alunos está a todo o vapor a esta altura do primeiro semestre. Muitos já têm tarefas a fazer com data para entregar, provas marcadas, livros a serem lidos, estudos que exigem esforço, dedicação e concentração. Enfim, é o ano letivo que, neste momento, já mostra ao aluno o que as escolas esperam que ele faça para produzir e aprender o mínimo requerido para seu período. Entretanto muitos dos que estão cursando as séries finais dos ciclos (os que freqüentam as oitavas séries do ensino fundamental e os terceiros anos do ensino médio) estão com a atenção voltada para um foco bem diferente.


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No lugar das viagens, poderíamos recriar rituais de formatura que fizessem mais sentido e que funcionassem como ritos de passagem
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Explico: nos últimos anos, já se tem tornado tradicional que a turma faça uma viagem para comemorar a formatura. E, em geral, o local escolhido -mais para eles do que por eles- tem sido Porto Seguro, na Bahia, que de seguro não tem nada. A organização desses eventos já foi feita por empresas especializadas em conjunto ou com a colaboração das escolas. Boa parte destas, ao perceber que o grupo de jovens, no passeio, se transformava em um agrupamento totalmente desgovernado e sem controle, decidiu ficar de fora do evento. Algumas fizeram isso discretamente, outras agiram de modo mais firme: não apenas avisaram aos pais que o passeio não contava com sua aprovação e/ou participação como chegaram a vetar o uso de suas dependências para a organização e a discussão do passeio.
Tal atitude de algumas escolas desagradou muito a um grande número de famílias, que não entendeu o recado implícito ou explicitado nesse enérgico, mas sensato, posicionamento. A mensagem dessas escolas é clara: sendo impossível para elas garantir, com sua participação, o bem-estar dos alunos e uma celebração saudável, a melhor atitude a tomar é a de reconhecer seus limites de atuação e comunicar isso às famílias. Já comentei o assunto anteriormente, mas o foco de nossa conversa de hoje é outro sobre o mesmo tema: o jogo pesado ao qual estão submetidos esses jovens.
As empresas organizadoras desse tipo de evento não querem perder esse filão de mercado. Então, elas partiram com estratégias persuasivas altamente eficazes e sedutoras praticadas diretamente com os jovens, esperando que eles façam o restante do trabalho. Que trabalho é esse? Muito simples: convencer os colegas e obter a permissão dos pais para realizar a viagem e o conseqüente pagamento.
Quando digo que é jogo pesado, é porque é mesmo. Um certo número de passagens gratuitas aos alunos que se propõem a organizar o grupo é ofertado pelas empresas, reuniões são realizadas mostrando, em forma de show, o espetáculo que é fazer esse tipo de viagem. Ora, que jovem resiste a tais investidas?
Já sabemos em que resulta todo esse trabalho das empresas: jovens lutando, com todas as armas que têm, para convencer os pais de que "precisam" participar da viagem e que não podem ser os únicos a ficar de fora. E quem conhece os jovens sabe muito bem que eles, quando querem algo, fazem de tudo mesmo para conseguir. Tal comportamento, legítimo e forte da parte deles, não tem encontrado nos adultos resistência suficiente. Muitos pais, por um motivo ou outro, não gostariam que a filha ou o filho participasse do programa. Mas, depois de resistir a inúmeros apelos dos filhos, acabam permitindo por exaustão e falta de argumentos tão convincentes quanto os deles.
Talvez os adultos pudessem colaborar com os jovens de outra forma. Quem sabe, buscando maneiras de poupá-los da pressão dessas empresas, protegendo-os, um pouco que seja, dessa tentação. Se, para um adulto que conta com recursos da maturidade, já é difícil enfrentar as pressões sociais, imagine para um jovem. Além disso, poderíamos recriar rituais de formatura que fizessem mais sentido para os jovens e que funcionassem como ritos de passagem. Aliás, esse é um excelente tema para uma outra conversa.

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ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de "Como Educar Meu Filho?" (ed. Publifolha)
roselysayao@folhasp.com.br

Matéria Publicada no jornal Folha de São Paulo, Caderno FolhaEquilíbrio, em 24 de março de 2005.
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/equilibrio/eq2403200516.htm